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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

PERCEPÇÃO

Ao cair da noite
Um ponto no horizonte
Observa a constelação de luzes
Criar a silhueta da cidade.

No horizonte não se ouve
O barulho que a realidade traz
Nem as dores que as almas carregam
Debaixo dela.

E quanto mais próximo chega
Percebe-se que seres habitam
Debaixo da lama que fede e sufoca
Pessoas enlameadas pensam  estar limpas.

O lugar que de longe ascendia
Cada vez mais perto apaga-se
Em realidades e pessoas bem pequenas e
Limitadas ao poder no escuro.

J. Mário Cavalcante



sábado, 21 de outubro de 2017

JÁ BASTA

Afundava a cabeça no travesseiro
Embalado por meus sonhos
Mergulhava cada vez mais
Na esperança de uma criança
Talvez inocente talvez cansada
Definitivamente convicta
De que no mundo, já basta
De tanta gente chata,
Demagógica e hipócrita.
Já basta de falsos pregadores
E de idiotas que se dizem doutores
E de doutores que não se dizem.
Procura-se demolidores de pedestais
Que não tenham problemas mentais
Aliás quem não os têm?
Com a cabeça afundada no travesseiro
Bem distante dos meus sonhos
Despertava cada vez mais
Sem esperança para um adulto
Talvez nocivo talvez cansado
Definitivamente convicto
De que no mundo, já basta.

J. Mário Cavalcante



domingo, 8 de outubro de 2017

AUTO-RELATO DE UM CIGARRO


Na maior parte do tempo sou fumaça
Dissipo no calor dos teus abraços
Até respirar fundo ameaça
Qualquer toque desmancha os laços.

Restaram os dias que sou brasa
Fervo incompreendido na alma
Distraída e leve queimo e vazo
Tornando difícil os dias de quem ama.

No chão um monte de cinzas
Misturam-se com a poeira
Das pedras dos meus sapatos.

Um último trago na soleira
Da porta, considerando os fatos
De que sou feito de camadas.

J. Mário Cavalcante



quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FATAL

Um pouco mais de uma década
Um punhado de fios prateados
Em seus olhos, desmanchados
Fitava-te sob a janela embaçada.

No silencio de dois corpos,
Dois séculos, dois em um.

Os dias apertavam-se entre as semanas
Nessa versão vanguardista de Nabokov
Nos refugiávamos dentro das horas
Pois a longo prazo o romance dissolve.

No silencio de dois corpos,
Dois séculos, dois em um.

Desculpas gentis morfina dos desiludidos
Que fingem sentir dor para evitar a dor
Mas pelo menos o carro é da mesma cor
Ambos fomos substituídos.

J. Mário Cavalcante


domingo, 18 de junho de 2017

O HOMEM

Em um quadrado,
Cada vez mais
Tentando enquadrar-se
Em um quadrado menor,
Menor e menor.

Até que não caiba,
Cada vez mais
Tentando caber
Em um caixa menor,
Menor e menor.

Até que deixa de ser,
Cada vez mais
Tentando ser
Torna-se um ser menor,
Menor e menor.

J. Mário Cavalcante



segunda-feira, 29 de maio de 2017

APARELHOS RECEPTORES DE BAIXAS IMAGENS CEREBRAIS

Vazia completamente oca
Coletiva de um modo individual
De mente rasa e boca irracional
Vazia e completamente louca?

Teclam os messias da incoerência
Que pregam tudo que não fazem,
Fezes  isso sim eles fazem
E vêm o debate livre como concorrência.

Formadores de opinião reivindicam
Com toda razão pelos motivos errados
Também não passam de histriões manipulados
Mas todo circo pede um palhaço bonachão.

Intelectuais com hipotrofia cerebral
São a nova tendência do verão
Junto a políticos que gostam de sermão

E pelas famílias brasileiras nos deixam à nau.

J. Mário Cavalcante


domingo, 14 de maio de 2017

CARINHO DE MÃE


Da janela aberta vejo a fresta de luz
que escorre da sala
solidão palida ameniza-se
com a companhia onipresente
de carinho de mãe.

Da porta da rua ouço o frigir
de qualquer coisa na cozinha
amor em forma de sabor
dom onipresente
de carinho de mãe.

Em qualquer lugar do mundo
conversas interminaveis
no silencio das palavras
sabedoria onipresente
de carinho de mãe.

Do fundo do meu coração
dentro do cofre de trás do quadro
do ultimo escritório
das entranhas de minhas emoções
guardo o carinho da minha mãe.

J. Mário Cavalcante