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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

FATAL

Um pouco mais de uma década
Um punhado de fios prateados
Em seus olhos, desmanchados
Fitava-te sob a janela embaçada.

No silencio de dois corpos,
Dois séculos, dois em um.

Os dias apertavam-se entre as semanas
Nessa versão vanguardista de Nabokov
Nos refugiávamos dentro das horas
Pois a longo prazo o romance dissolve.

No silencio de dois corpos,
Dois séculos, dois em um.

Desculpas gentis morfina dos desiludidos
Que fingem sentir dor para evitar a dor
Mas pelo menos o carro é da mesma cor
Ambos fomos substituídos.

J. Mário Cavalcante


domingo, 18 de junho de 2017

O HOMEM

Em um quadrado,
Cada vez mais
Tentando enquadrar-se
Em um quadrado menor,
Menor e menor.

Até que não caiba,
Cada vez mais
Tentando caber
Em um caixa menor,
Menor e menor.

Até que deixa de ser,
Cada vez mais
Tentando ser
Torna-se um ser menor,
Menor e menor.

J. Mário Cavalcante



segunda-feira, 29 de maio de 2017

APARELHOS RECEPTORES DE BAIXAS IMAGENS CEREBRAIS

Vazia completamente oca
Coletiva de um modo individual
De mente rasa e boca irracional
Vazia e completamente louca?

Teclam os messias da incoerência
Que pregam tudo que não fazem,
Fezes  isso sim eles fazem
E vêm o debate livre como concorrência.

Formadores de opinião reivindicam
Com toda razão pelos motivos errados
Também não passam de histriões manipulados
Mas todo circo pede um palhaço bonachão.

Intelectuais com hipotrofia cerebral
São a nova tendência do verão
Junto a políticos que gostam de sermão

E pelas famílias brasileiras nos deixam à nau.

J. Mário Cavalcante


domingo, 14 de maio de 2017

CARINHO DE MÃE


Da janela aberta vejo a fresta de luz
que escorre da sala
solidão palida ameniza-se
com a companhia onipresente
de carinho de mãe.

Da porta da rua ouço o frigir
de qualquer coisa na cozinha
amor em forma de sabor
dom onipresente
de carinho de mãe.

Em qualquer lugar do mundo
conversas interminaveis
no silencio das palavras
sabedoria onipresente
de carinho de mãe.

Do fundo do meu coração
dentro do cofre de trás do quadro
do ultimo escritório
das entranhas de minhas emoções
guardo o carinho da minha mãe.

J. Mário Cavalcante






terça-feira, 9 de maio de 2017

AMORES EM BANHO-MARIA

Amores que me levam
Em banho-maria
Obrigam-me,
Meter a mão na água.

Amores que levo
Em banho-maria
Desisto!
Nunca esquentam.

Amores que me levam
Em banho-maria
Fazem-me,
Perder a fome.

Amores que levo
Em banho-maria
Sério!
Não fervem.

Amores em banho-maria
Vos digo
É melhor tirar do fogo.

J. Mário Cavalcante


segunda-feira, 24 de abril de 2017

A SOLIDÃO ME TIRA O SONO




O relógio já passa das três e eu aqui deitado virando de um lado para o outro numa briga épica com meu travesseiro como se ele fosse o culpado pela minha falta de sono, e os minutos vão passando, atormentando numa crescente, culpo meus problemas cotidianos como contas, responsabilidades adiadas, projetos inacabados essas coisas triviais que fazem parte do dia-a-dia, mas................. Sinceramente não é disso que se trata minha insônia. Então algo acontece naquele instante em que todos os pensamentos efervescentes repousam no fundo da memória e nesse breve momento de paz percebo que o que me tira o sono não são as trivialidades mas sim um vazio que começa a ganhar forma e no mesmo instante como uma apresentação em power point começam a surgir na minha frente vários olhares e todos têm algo em comum, parecem que todos já encontraram seu lugar no mundo e eu não encontrei nem uma posição para dormir.
 E no vai e vem dos minutos que se tornaram horas meus pensamentos continuam tentando encontrar explicações ou pelo menos alento tentando prever o futuro me perguntando. Qual será a próxima vez que não sentirei esse vazio de novo?
Será que você pensa em mim?
Será que já há um vislumbre no tempo de quem será?
E de serás vou construindo um conjuntura sócio filosófica de mim mesmo, divagando vou sonhando, construindo e me preparando para o que está por vir, que pode ser vagar por mais um tempo a esmo nos meus devaneios solitários ou encontrar cumplicidade bem dosada entre duas pessoas que agora querem dividir os mesmos instantes.

domingo, 5 de março de 2017

EM QUE SINTONIA VIBRA NOSSOS CORAÇÕES





Quando despertei pela manhã ainda meio sonolento, nesta quarta-feira de cinzas onde a cortina de poeira sentava semelhante a de um campo de batalha após o caos, por de trás da confusão da noite anterior de pensamentos tempestuosos igual ao clima que insistia em entrar pela janela, tua lembrança me visitou em um sonho para me acordar de forma sutil, diferente de sua beleza que me arrebata e faz disparar o start de minhas emoções, pois sutil só o descerrar dos olhos.
Engraçado como tu entrou na minha vida sem pedir autorização e foi preenchendo espaços como poeira na dispensa abandonada de meus sentimentos, com um olhar baixo, profundo, obscuro e cheio de desdém diante da minha presença invisível e opaca.
Sempre acompanhada parece não frequentar a solidão parece blindada inalterada a dama de ferro sem coração dilacerando por onde passa emoções.
No decorrer das horas sua imagem se esvai como fumaça, na trincheira das minhas solidões. É quando percebo que por mais que queira que o amor aconteça não depende de mim, nós vivemos em frequências diferentes e não adianta que não sintoniza por agora, quem sabe em outra época quando entrarmos na mesma frequência ou ainda pode ser que isso nunca aconteça.
Enquanto olhava para a TV desligada mergulhado no nada vi que não é possível forçar o gostar, quantas vezes ouço em coro os amigos a falar (Está só porque quer!), mas não trata-se de querer e sim de sentir, preciso sentir e também que sintam o mesmo por mim, era o que escrevia sobre a frequência e quão difícil é “frequenciar-se” no meio desse monte de “desfrequenciados”.

J. Mário Cavalcante